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Showing posts from June, 2026

Luiz Barata & Nitcho - ETERNO MENINO LEVADO (2026)

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  1. A infância como resistência Há discos que falam sobre amadurecimento. ETERNO MENINO LEVADO faz algo mais raro: questiona se amadurecer é mesmo uma virtude. Lançado em janeiro de 2026, fruto da parceria entre Luiz Barata e o produtor Nitcho, o álbum surge em um momento peculiar do rap brasileiro. Depois de uma década em que o gênero consolidou sua presença no mainstream, parte da cena passou a reagir ao excesso de profissionalização, à lógica do algoritmo e à estética corporativa que frequentemente transforma artistas em gestores de marca. Nesse contexto, o disco de Barata parece reivindicar um direito quase político: o direito à irreverência.  O próprio conceito do álbum é revelador. A figura do “menino levado” não aparece como nostalgia ingênua da infância, mas como símbolo de uma subjetividade que se recusa a ser completamente domesticada. O texto de apresentação do projeto descreve justamente essa tensão entre crescer e preservar a capacidade de brincar, provocar e cr...

David Moore - Graze the Bell (2026)

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  David Moore e a música após o desaparecimento do excesso Existe uma trajetória silenciosa atravessando toda a carreira de David Moore. Desde os primeiros trabalhos com Bing & Ruth, sua música parece movida por um impulso de subtração. Os arranjos cresceram e diminuíram, os ensembles se expandiram e se contraíram, sintetizadores e órgãos surgiram e desapareceram, mas a direção geral sempre apontou para um centro cada vez mais despojado. Graze the Bell representa o ponto mais radical desse processo: um álbum de piano solo que não soa como redução, mas como destilação. Lançado pela RVNG Intl. em janeiro de 2026, o disco é o primeiro álbum de piano solo amplamente divulgado sob o próprio nome de Moore. Gravado ao vivo, sem overdubs, num Steinway Hamburg D de 1987, ele se apresenta como uma espécie de retorno à origem — mas um retorno transformado por duas décadas de experimentação, colaborações e refinamento estético. O que impressiona imediatamente é que Graze the Bell evita q...

Ratboys - Singin’ to an Empty Chair (2026)

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  Singin' to an Empty Chair – Ratboys e a difícil arte de conversar com ausências Há discos sobre rompimentos. Há discos sobre reconciliação. E há discos mais raros que entendem que a maior parte da vida emocional acontece no espaço intermediário, quando nenhuma dessas coisas é possível. Singin' to an Empty Chair , sexto álbum dos Ratboys, pertence a essa categoria. Trata-se de um álbum sobre conversas que nunca aconteceram, respostas que nunca chegaram e afetos que continuam existindo mesmo depois do colapso da comunicação. O título não é mera metáfora poética. Ele deriva da técnica terapêutica da "cadeira vazia", em que o paciente imagina diante de si alguém ausente e verbaliza sentimentos impossíveis de expressar diretamente. A experiência de terapia da vocalista e compositora Julia Steiner tornou-se o núcleo conceitual do álbum. ( Pitchfork ) O resultado é talvez o trabalho mais maduro e emocionalmente complexo da carreira da banda. O momento histórico: quando o a...

Jill Scott - To Whom This May Concern (2026)

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Em 2000, quando Jill Scott lançou Who Is Jill Scott? Words and Sounds Vol. 1, o neo-soul representava uma promessa: a possibilidade de reconciliar sofisticação musical, consciência cultural e sucesso popular. Vinte e seis anos depois, o cenário é radicalmente diferente. O streaming remodelou a economia da atenção, a música popular tornou-se cada vez mais fragmentada e a lógica algorítmica favorece impacto imediato sobre desenvolvimento artístico. Nesse contexto, To Whom This May Concern surge quase como uma anomalia histórica: um álbum de quase uma hora, com dezenove faixas, concebido por uma artista que não lançava um disco de estúdio desde Woman (2015).  A primeira impressão é que Jill Scott não voltou para se atualizar. Voltou para reafirmar uma tradição. E isso faz toda a diferença. A maturidade como linguagem musical O aspecto mais impressionante do álbum é sua recusa em operar sob a ansiedade da relevância. Muitos artistas veteranos retornam tentando provar que ainda conseg...

Willow - Petal Rock Black (2026)

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  Petal Rock Black – A espiritualidade da metamorfose em tempos de saturação 1. Introdução e contexto A trajetória de Willow tem sido uma das mais curiosas e subestimadas da música popular contemporânea. Poucos artistas de sua geração atravessaram tantas identidades estéticas em tão pouco tempo: do pop juvenil ao R&B alternativo, do folk psicodélico ao pop-punk, do neo-soul ao jazz experimental. O que muitos críticos interpretaram como falta de direção talvez seja melhor compreendido como recusa sistemática à estabilidade. Petal Rock Black surge após Empathogen (2024), disco que já indicava uma aproximação decisiva com o jazz espiritual, a improvisação e uma linguagem menos dependente das estruturas convencionais da canção pop. Se aquele álbum representava uma abertura de portas, Petal Rock Black atravessa o portal completamente. O contexto cultural do lançamento é importante. Em meados da década de 2020, a música popular tornou-se cada vez mais orientada por algoritmos, fra...

KAVARI - PLAGUE MUSIC EP (2026)

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  1. Introdução: música eletrônica após o fim da inocência digital Poucos EPs recentes capturam tão bem a atmosfera psicológica da década de 2020 quanto PLAGUE MUSIC , estreia de grande visibilidade da produtora e cantora KAVARI. Embora o título evoque imediatamente a pandemia de Covid-19, o trabalho opera em escala mais ampla. A "praga" aqui não é apenas biológica. É emocional, informacional e espiritual. É a sensação de viver numa época marcada por sobrecarga digital, colapso da atenção, ansiedade algorítmica e dissolução gradual das fronteiras entre intimidade e espetáculo. Lançado pela XL Recordings, selo historicamente associado a artistas que desafiam categorias fáceis — de The Prodigy a Arca —, PLAGUE MUSIC chega num momento em que a música eletrônica experimental vive uma curiosa transformação. Depois de uma década dominada por hiperpop, maximalismo digital e colagens pós-internet, muitos artistas começaram a explorar sonoridades mais escuras, físicas e emocionalment...

Yann Tiersen – Cascade Street (1995)

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Antes de se tornar mundialmente conhecido pela trilha de Amélie, Yann Tiersen era uma figura excêntrica da cena independente francesa, um compositor que parecia operar numa fronteira pouco definida entre música erudita de câmara, folk europeu, minimalismo repetitivo e trilha sonora imaginária. Seu álbum de estreia, La Valse des Monstres (1995), já continha praticamente todos os elementos que posteriormente definiriam sua obra: melodias circulares, instrumentação acústica incomum, melancolia lúdica e uma capacidade rara de transformar pequenas frases musicais em universos emocionais inteiros. “Cascade Street” é uma das peças que melhor sintetizam essa estética inicial. Música como espaço físico O primeiro aspecto que chama atenção é a maneira como Tiersen compõe geograficamente. Muitos compositores escrevem melodias. Tiersen parece escrever lugares. “Cascade Street” não se desenvolve como narrativa dramática tradicional. Não há conflito evidente, resolução triunfante ou progressão emoc...

Gorillaz – The mountains (2026)

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 Existe um momento em toda grande obra tardia em que um artista deixa de tentar prever o futuro e passa a dialogar com os mortos. The Mountain é esse momento para Gorillaz. Não porque Damon Albarn tenha se tornado nostálgico — o disco está longe de ser uma peça de memória confortável —, mas porque finalmente compreendeu que o projeto Gorillaz sempre foi, secretamente, sobre arquivos: arquivos de vozes, estilos, geografias, tecnologias e fantasmas culturais. Depois do cinismo pop de Cracker Island , que tratava culto digital e alienação contemporânea como espetáculo neon, The Mountain desloca Gorillaz para outro território: mortalidade. A morte dos pais de Albarn e Jamie Hewlett durante o processo de criação transformou o álbum numa peregrinação emocional. Viagens à Índia, contato com filosofias hinduístas sobre reencarnação e impermanência, além da incorporação de músicos vivos e mortos ao tecido sonoro do disco, converteram o projeto numa espécie de ritual multimídia sobre conti...

Yungblud – Idols (2026)

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 Há algo fascinante — e profundamente contraditório — em Idols . O álbum duplo de Yungblud funciona ao mesmo tempo como tentativa sincera de maturidade artística e como monumento involuntário às limitações da própria ideia de “salvar o rock”. Poucos artistas da década de 2020 encarnaram tão intensamente essa fantasia cultural: o jovem outsider hipercarismático que, em meio ao colapso algorítmico da música de guitarras, reaparece prometendo devolver escala, teatralidade e fervor geracional ao rock britânico. Dominic Harrison nunca rejeitou completamente essa narrativa; ele apenas tentou sofisticá-la. O problema é que Idols revela o quanto essa ambição é simultaneamente autêntica e fabricada. Desde o início da carreira, Yungblud existiu num espaço ambíguo entre rebeldia genuína e hiperconsciência performática. Sua estética sempre misturou punk, emo, glam rock e cultura digital com a velocidade de um feed. Em discos anteriores, essa fragmentação era compensada por energia bruta. Idol...

Hayley Williams – Ego death at bachelorette party (2025)

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 O terceiro álbum solo de Hayley Williams chega carregando uma ironia estrutural já inscrita no próprio título: Ego Death at a Bachelorette Party é simultaneamente colapso espiritual e espetáculo social, dissolução do eu e performance pública do eu. Poucos discos de 2025 compreenderam tão bem a fadiga contemporânea da identidade — especialmente da identidade feminina transformada em marca, narrativa terapêutica e conteúdo permanente. Paramore sempre trabalhou tensão emocional em escala coletiva; aqui, Williams miniaturiza o drama até ele se tornar uma espécie de ruído interno contínuo. ( Pitchfork ) O contexto do disco é decisivo. Depois de duas décadas presa a um contrato com a Atlantic assinado ainda adolescente, Williams lança seu primeiro trabalho completamente independente sob o selo Post Atlantic. ( Pitchfork ) Essa independência não aparece como triunfo libertário clássico — não há aqui o glamour da “artista finalmente livre” — mas como estado de exaustão pós-industrial. O ...

Otto Benson – Peanut (2025)

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 Há algo profundamente contracorrente em Peanut , de Otto Benson. Não porque o disco seja agressivamente inovador — ele não é —, mas porque recusa o tipo de inovação que a música independente contemporânea passou a recompensar: hiperestimulação, maximalismo digital, ironia performática, compressão emocional para consumo rápido. Em um ecossistema cultural dominado por algoritmos que favorecem intensidade instantânea e identidade legível, Benson entrega um álbum quase evaporativo. Um disco que parece existir na borda da percepção, como se pudesse desaparecer caso você olhe diretamente para ele. Esse gesto é inseparável do percurso do artista. Antes de Peanut , Benson orbitava múltiplos pseudônimos e linguagens: vaporwave fragmentário como Memo Boy, ambient abstrato como Ronnie P, explosões hiperpop sob o nome OTTO. Sua carreira sempre teve algo de laboratório doméstico — uma oficina de formas digitais, bricolagens afetivas e pequenas engenharias sonoras. O fato de ter abandonado seu ...

Álbum: Celia Cruz - Son Con Guaguancó (1966)

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 Quando Celia Cruz con el Guaguancó foi lançado, Celia Cruz ainda não era exatamente a entidade mitológica transnacional que se tornaria décadas depois. Ela já era enorme dentro da música cubana e da diáspora caribenha, claro — especialmente após os anos com a Sonora Matancera —, mas Celia Cruz con el Guaguancó registra algo mais interessante do que simples consagração: captura o momento em que sua voz começa a ultrapassar os limites do estrelato tropical tradicional para tornar-se força cultural quase elemental. O álbum é importante não apenas pelo que contém musicalmente, mas pelo que compreende historicamente sobre deslocamento, identidade afro-caribenha e sobrevivência cultural. Em meados dos anos 1960, a música latina atravessava transformação profunda. A Revolução Cubana havia alterado drasticamente os fluxos culturais entre Cuba e Estados Unidos; músicos exilados reconstruíam carreiras em Nova York, Porto Rico e México; ritmos afro-cubanos começavam a fundir-se mais intensa...