Gorillaz – The mountains (2026)
Existe um momento em toda grande obra tardia em que um artista deixa de tentar prever o futuro e passa a dialogar com os mortos. The Mountain é esse momento para Gorillaz. Não porque Damon Albarn tenha se tornado nostálgico — o disco está longe de ser uma peça de memória confortável —, mas porque finalmente compreendeu que o projeto Gorillaz sempre foi, secretamente, sobre arquivos: arquivos de vozes, estilos, geografias, tecnologias e fantasmas culturais.
Depois do cinismo pop de Cracker Island, que tratava culto digital e alienação contemporânea como espetáculo neon, The Mountain desloca Gorillaz para outro território: mortalidade. A morte dos pais de Albarn e Jamie Hewlett durante o processo de criação transformou o álbum numa peregrinação emocional. Viagens à Índia, contato com filosofias hinduístas sobre reencarnação e impermanência, além da incorporação de músicos vivos e mortos ao tecido sonoro do disco, converteram o projeto numa espécie de ritual multimídia sobre continuidade após desaparecimento. (The Harvard Crimson)
O mais impressionante é que The Mountain evita completamente a armadilha do álbum elegíaco solene. A morte aqui não aparece como encerramento transcendental, mas como reorganização de matéria cultural. Vozes de colaboradores falecidos — Bobby Womack, Mark E. Smith, Dennis Hopper, Trugoy the Dove, Tony Allen — surgem não como homenagens sentimentais, mas como entidades ainda circulando dentro da máquina Gorillaz. (The Guardian) O disco transforma arquivo em assombração ativa. Em vez de “preservar” artistas mortos, permite que continuem interferindo no presente.
Essa ideia redefine retrospectivamente toda a lógica do grupo. Desde o início, Gorillaz operava como banda virtual construída sobre fragmentação identitária: personagens fictícios cantando músicas feitas por convidados de múltiplas culturas e gêneros. Em The Mountain, essa fragmentação deixa de ser apenas pós-modernismo divertido e ganha peso metafísico. O álbum pergunta: o que sobra de uma pessoa após sua dissolução? Talvez apenas voz, influência, ruído residual.
Musicalmente, é o disco mais coeso de Gorillaz desde Plastic Beach. Isso não significa uniformidade; significa direção espiritual clara. (Our Culture) Durante anos, muitos álbuns do grupo funcionaram como coleções brilhantes porém dispersas de colaborações. Aqui, pela primeira vez em muito tempo, todas as peças parecem gravitacionalmente alinhadas ao mesmo centro temático.
A incorporação de música clássica indiana poderia facilmente ter resultado em exotismo turístico — um risco permanente quando artistas britânicos buscam transcendência oriental como antídoto para decadência ocidental. Mas Albarn evita isso em parte porque a influência não aparece como decoração superficial. O álbum internaliza estruturas circulares, drones meditativos, escalas modais e uma concepção temporal menos baseada em resolução harmônica tradicional. (The Harvard Crimson) As participações de Anoushka Shankar, Asha Bhosle e músicos hindustani não soam anexadas ao universo Gorillaz; elas reorganizam o próprio funcionamento do disco.
A faixa-título já anuncia isso. Sitar, bansuri e texturas eletrônicas se entrelaçam como se Albarn tentasse encontrar um ponto comum entre rave melancólica britânica e espiritualidade indiana. (The Harvard Crimson) O resultado não é fusão “world music” no sentido antiquado, mas uma espécie de cosmopolitismo pós-colonial fatigado, consciente das ruínas históricas por trás de qualquer encontro cultural.
Ao longo do álbum, Gorillaz realiza algo raro: transforma eclecticismo em linguagem emocional coerente. “Damascus” mistura grooves árabes e eletrônica danificada; “The Happy Dictator” usa Sparks para satirizar autoritarismo contemporâneo com teatralidade grotesca; “The Empty Dream Machine” cruza hip-hop abstrato, psicodelia e melancolia espiritual. (Sputnikmusic) O disco se move entre idiomas, ritmos e tradições sem parecer coleção de playlists globais cuidadosamente curadas para streaming. Há atrito real entre as partes.
Isso ocorre porque Albarn finalmente voltou a escrever como alguém vulnerável ao mundo, e não apenas observador irônico dele. Durante boa parte da década de 2010 e início dos anos 2020, Gorillaz frequentemente soava excessivamente consciente de sua própria inteligência conceitual. The Mountain recupera algo mais instável: emoção sem total controle estético.
Mesmo assim, o álbum continua profundamente político. Só que sua política agora emerge da mortalidade, não do comentário imediato. Quando Gorillaz fala de ditadores, gurus plásticos ou sociedades pós-verdade, o faz dentro de uma estrutura maior: civilizações inteiras tentando negar impermanência através de espetáculo ideológico. (The Times) O disco entende que cultura digital contemporânea transformou todos nós em pequenos arquivistas desesperados, acumulando imagens e identidades para evitar desaparecimento.
A produção merece atenção especial. James Ford e Remi Kabaka Jr. constroem um dos trabalhos mais detalhados da discografia do grupo. Há uma densidade táctil incomum nas texturas: percussões respiram, sintetizadores envelhecem dentro da mixagem, reverbs parecem cavernas físicas. Diferentemente da esterilidade hipercompressa de muito pop contemporâneo, The Mountain soa poroso. O silêncio importa. O espaço importa.
Mas talvez o elemento mais surpreendente seja a recusa do disco em se tornar puramente melancólico. Apesar de centrado em luto, ele pulsa com vitalidade quase infantil. (The Guardian) Isso sempre foi a força secreta de Gorillaz: compreender que tristeza e ludicidade não são opostos. Mesmo aqui, Albarn mantém grooves dançáveis, humor absurdo, pequenas explosões de nonsense cartunesco. O álbum parece afirmar que continuar brincando talvez seja precisamente a resposta humana ao desaparecimento inevitável.
Naturalmente, The Mountain possui excessos. Em certos momentos, sua ambição conceitual ameaça dissolver impacto individual das músicas. Algumas faixas se alongam além do necessário; outras parecem existir mais como capítulos temáticos do que composições memoráveis isoladamente. E embora a integração multicultural seja frequentemente belíssima, ocasionalmente há uma sensação de sobrecarga curatorial — como se Gorillaz ainda não conseguisse resistir completamente ao impulso de transformar cada faixa em mini-festival global.
Também permanece uma questão inevitável: até que ponto Gorillaz consegue escapar da própria condição de marca? Após 25 anos, o projeto já não é outsider satírico; tornou-se instituição cultural consolidada. The Mountain reconhece isso parcialmente, mas nunca resolve totalmente a tensão entre autenticidade espiritual e gigantismo corporativo multimídia.
Ainda assim, o álbum triunfa precisamente porque incorpora essa contradição ao seu significado. Gorillaz sempre foi sobre mediação — personagens virtuais mediando músicos reais, tecnologia mediando emoção, animação mediando humanidade. Agora, a mediação final é a morte.
E é aí que The Mountain alcança sua estranha grandeza tardia. O disco entende que arte talvez não sirva para derrotar desaparecimento. Serve apenas para manter vozes circulando um pouco mais dentro do ruído do mundo.
Em 2026, quando grande parte da música pop parece concebida para consumo instantâneo e esquecimento acelerado, Gorillaz lança um álbum obcecado exatamente pelo contrário: permanência imperfeita. Não permanência monumental, mas residual — ecos, fragmentos, fantasmas sonoros.
Como uma montanha observando gerações desaparecerem enquanto continua lentamente acumulando tempo.

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