O Som do Abrigo: Ventura Profana Entre Liturgia e Colapso
Existe uma diferença importante entre artistas que usam a religião como repertório simbólico e artistas que realmente parecem disputar o território espiritual da cultura. Ventura Profana pertence claramente ao segundo grupo. Todo Cuidado É Pouco não é apenas um álbum “sobre fé”, “sobre trauma” ou “sobre dissidência queer”. É um disco interessado em sequestrar os mecanismos emocionais da experiência religiosa brasileira — especialmente pentecostal — e reinscrevê-los num corpo historicamente expulso dessa própria tradição. O que Ventura faz aqui não é sátira anticristã nem mera provocação estética. É teologia performática através da música popular.
Esse é o aspecto decisivo do álbum: ele entende que, no Brasil contemporâneo, religião não é um tema cultural entre outros. É infraestrutura afetiva. É linguagem do desejo, da culpa, da promessa, da violência e da sobrevivência coletiva. Desde Traquejos Pentecostais para Matar o Senhor (2020), Ventura já trabalhava nessa zona de colisão entre liturgia evangélica, transfeminilidade, música eletrônica experimental e imagética apocalíptica. Mas aquele trabalho operava sobretudo pela fricção. Era um disco de confronto. Todo Cuidado É Pouco, ao contrário, é um álbum de reconstrução emocional.
A mudança de temperatura é radical.
Se Traquejos Pentecostais soava como culto interrompido por pane elétrica — ruído, colapso, exorcismo digital —, Todo Cuidado É Pouco prefere a ideia de abrigo. O próprio título sugere isso: cuidado aqui não é delicadeza abstrata, mas tecnologia de sobrevivência. O disco parece perguntar continuamente como corpos dissidentes aprendem a existir depois da guerra simbólica permanente. Não por acaso, várias letras abandonam a linguagem frontal da denúncia para trabalhar afetos mais ambíguos: repouso, desejo, erotismo, comunhão, espiritualidade cotidiana.
Musicalmente, o álbum é impressionante justamente porque evita transformar essa virada emocional em domesticação estética. Ventura e o produtor Jordi Amorim constroem uma linguagem sonora profundamente híbrida: reggae, pagodão baiano, MPB, jazz espiritual, R&B alternativo, afrobeat, rock psicodélico e ecos gospel convivem sem jamais se estabilizar completamente.
O disco parece feito de matérias porosas. Nada nele é rígido. As músicas frequentemente se organizam menos como estruturas pop convencionais e mais como correntes atmosféricas: percussões entram como lembranças coletivas, guitarras aparecem quase evaporadas, linhas melódicas se dissolvem antes de alcançar resolução plena. Há uma recusa deliberada do acabamento excessivo. Isso é crucial. Em plena era do hiperpolimento algorítmico do streaming, Todo Cuidado É Pouco preserva textura humana.
A produção entende algo que muitos discos “experimentais” brasileiros esquecem: experimentalismo não é acumular ruídos; é reorganizar sensações. Ventura trabalha espaço e respiração com enorme inteligência. Silêncios têm função dramática. Reverberações criam sensação litúrgica. Certos vocais parecem gravados não para ocupar o centro da mixagem, mas para assombrar suas bordas.
“Me Deixa em Paz” talvez seja a chave emocional do álbum. A música transforma a linguagem mística da transformação espiritual numa espécie de erotismo existencial. “Hoje eu vou ser a tua casa”, canta Ventura — e a frase soa simultaneamente amorosa, religiosa e política. Em outro contexto, isso poderia virar mera metáfora terapêutica contemporânea. Aqui, porém, a canção carrega peso histórico real: a ideia de “casa” para corpos trans e queer brasileiros nunca é neutra. Ela implica expulsão, reinvenção comunitária e reconstrução simbólica do pertencimento.
É impressionante como Ventura manipula imaginário pentecostal sem cair na caricatura camp óbvia. Exu, profecia, louvor, transformação, êxtase e corpo aparecem no disco não como ornamentos conceituais, mas como experiências acústicas. A espiritualidade aqui é material sonora. Os grooves circulares de certas faixas lembram cultos afro-diaspóricos; o fraseado vocal às vezes evoca sermão, às vezes oração íntima, às vezes transe.
Essa dimensão corporal do álbum o aproxima mais de artistas como Linn da Quebrada e Jup do Bairro do que da tradição clássica da MPB politizada. Mas Ventura possui uma singularidade importante: enquanto parte da música queer brasileira recente trabalha desconstrução através do choque ou da ironia, ela parece interessada em algo mais perigoso — recuperar transcendência sem restaurar conservadorismo.
Isso torna Todo Cuidado É Pouco um disco profundamente brasileiro de um modo raro. Porque o álbum compreende que o Brasil contemporâneo não pode ser explicado apenas pela gramática secular progressista nem pela hegemonia evangélica conservadora. O país real existe precisamente na colisão entre ambas. Ventura habita essa fratura.
A performance vocal reforça essa tensão. Ventura não canta como virtuose tradicional. Sua voz opera muito mais como presença ritual do que como demonstração técnica. Em alguns momentos ela soa quase falada; em outros, assume inflexões melódicas suaves, vulneráveis, próximas do reggae lovers rock ou do neo-soul espiritualizado. Há instantes em que a interpretação parece deliberadamente precária — mas essa precariedade funciona como estratégia expressiva. O álbum rejeita a ideia de pureza vocal. Isso conversa diretamente com sua política estética mais ampla: identidades impuras, corpos híbridos, espiritualidades contaminadas.
Mas Todo Cuidado É Pouco também possui limitações perceptíveis. O principal problema do álbum talvez seja justamente sua recusa do conflito frontal. Em comparação ao radicalismo estético de Traquejos Pentecostais, este novo trabalho às vezes parece excessivamente conciliador. Há momentos em que a suavidade atmosférica dilui a força dramática das composições. Certas faixas operam mais como estados emocionais difusos do que como canções plenamente desenvolvidas. Parte da crítica pode interpretar isso como sutileza contemplativa; outra parte verá perda de intensidade.
Além disso, o ecletismo do álbum ocasionalmente ameaça sua coesão interna. Ventura é claramente uma artista interessada em circulação de linguagens — reggae, jazz, gospel, pagodão, MPB, afrobeat —, mas nem sempre essas fusões produzem tensão produtiva. Às vezes o disco parece hesitar entre liturgia experimental e organicidade pop acessível. Essa oscilação gera beleza, mas também dispersão.
Ainda assim, seria um erro avaliar Todo Cuidado É Pouco apenas pelos critérios tradicionais de “consistência” autoral. O álbum é mais interessante como gesto cultural do que como objeto formal perfeitamente fechado. Ele documenta uma transformação importante na música brasileira contemporânea: a passagem de uma estética queer baseada prioritariamente na ruptura para uma estética do cuidado, da permanência e da reconstrução afetiva.
Isso não significa pacificação. Pelo contrário. Existe algo profundamente subversivo em Ventura insistir em delicadeza espiritual num país onde religião institucional frequentemente opera como máquina de exclusão. O disco propõe uma espécie de contrateologia popular: uma espiritualidade onde prazer, corpo trans, memória afro-diaspórica e desejo coletivo coexistem sem necessidade de absolvição.
A recepção crítica relativamente calorosa ao álbum também indica mudança mais ampla na cultura brasileira. Durante muito tempo, trabalhos como este seriam confinados à categoria estreita de “arte experimental queer”. Todo Cuidado É Pouco parece escapar parcialmente desse confinamento porque Ventura compreende algo essencial sobre música popular: radicalidade estética só ganha potência histórica quando produz linguagem emocional compartilhável.
No fim, o disco não funciona como manifesto fechado nem como coleção de canções perfeitamente lapidadas. Funciona como espaço ritual. Um lugar onde vulnerabilidade vira método composicional; onde fé deixa de ser instrumento disciplinador e retorna como imaginação coletiva; onde música popular brasileira recupera a possibilidade de transcendência sem nostalgia moral.
Todo Cuidado É Pouco talvez não seja uma obra-prima totalmente realizada. Há dispersões, suavizações excessivas e momentos em que sua atmosfera supera sua arquitetura musical. Mas poucos discos brasileiros recentes soam tão conscientes do próprio tempo histórico — um tempo de exaustão espiritual, violência simbólica e busca desesperada por formas alternativas de permanência afetiva.
Ventura Profana não oferece redenção. Oferece abrigo temporário dentro do colapso. E talvez seja exatamente disso que trata o álbum.

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